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Um caso com um Neanderthal

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Acontece que há fábulas urdidas de porvir. O batom que a boca espera no camarim do próximo palco. A melodia que ouço do pássaro que ainda não sabe que vai pousar na varanda do quinto andar. O sal que lambo da pele depois do mergulho na onda que se há-de formar antes da espuma. Conjecturar o futuro é ofício ancestral. Contou-me uma pedra sobre um auroque sulcado na rocha por um homem que desenhava à luz que lhe crepitava no peito, com certeza por saber já dos meus olhos vindouros de espanto ao chegar perto da figura. Nada sabemos sobre quem imaginou quem primeiro, se foi seu sorriso nómada que atravessou milénios ou meu olhar que espreitou por cima do ombro e tropeçou no paleolítico. Mas a poesia rupestre, quase impossível linguagem gravada sobre o tempo, ora côncavo, ora convexo, sopra para longe os sedimentos que empoeiram os corações e vem à tona do xisto uma missiva e respira que o amor é um círculo, ora côncavo, ora convexo, que a escrita do mundo reproduz. Entontece-nos no mar a o...

Let's go crazy

regressava a casa, o pensamento a inaugurar a noite. liguei o rádio do carro, mudei para a opção CD e em poucos segundos Prince fez-me olhar nos olhos do retrovisor dearly beloved we are gathered here today to get through this thing called life.* saí do espelho com determinação de passerelle e logo espetei a imaginação contra um camião do lixo. a via era de sentido único, uma faixa de rodagem sem escapatória possível. desliguei o motor, observava as movimentações os fatos a luzir como mirada de gato a cor que parece sempre duvidar entre o verde e o amarelo os gestos repetidos até à eficiência o voo avulso dos sacos de plástico, sobras da vida a pairar sobre as cabeças. saí do carro para me ver do alto, ao volante, atenta à performance tão citadina, tão noturna, tão antiga. a imagem assomou-se como experiência velha, já por outras vezes vivida naquela mesma rua, quem sabe sobre os mesmos paralelos, num tempo em que o banco de trás era o meu reinado. electric word, life. it means forever...

varanda da imaginação

haja varandas com vista para a imaginação. é tempo de restrição de movimento e no entanto coço o nariz para agarrar uma ideia levo a mão à boca para tirar a palavra da ponta da língua esfrego os olhos para mudar de paisagem e sem intenção infrinjo as normas à vista de toda a gente na varanda onde ninguém me vê com vista para a imaginação. este ano a primavera trouxe bandos de caixões e caixões e caixões em camiões que nem sabem para onde ir. que ideia mais absurda à beira de um pássaro que acabou de aqui passar decidido a furar a morte com uma melodia nova no bico largada de propósito na varanda onde ninguém me vê com vista para a imaginação. se me humedecem os olhos ao pensar nos que me são hábito antigo que agora não posso tocar por um instante acho que vejo o mar daqui e deslumbro-me por nunca ter dado conta disso antes na varanda onde ninguém me vê com vista para a imaginação. não me critiquem por me encantar em tempo de trevas porque já que os amores e os amigos me inventaram o at...
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Conta o meu pai que, nos anos 60, testemunhou histórias do “Salto” em que os emigrantes ilegais que saíam de Trás-Os-Montes, em busca de melhor sobrevida noutros países, pagavam aos passadores para encetarem uma jornada clandestina que os levaria para fora de uma geografia minada de injustiça e opressão. Um dos homens, ao despedir-se rumo a França, quis aprender a falar francês, apenas o imprescindível: du pain et des pommes de terre. Pão e batatas. De contrabandista em contrabandista, passavam as fronteiras do espaço exterior e do espaço interior, como se o caminho que percorriam mapa afora estivesse encostado a um caminho que faziam por si adentro, de tal forma que não era possível fazer a viagem esperada sem fazer a mais imprevisível de todas: a interior. Passavam tormentas grandes, concentradas em detalhes. A espera diurna fazia parte da fuga noturna. Esperavam, de roupas molhadas, num espaço mais apertado do que a incerteza. Deitavam-se escondidos num palheiro dez ou mais homens...

25 abril sempre

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A cortina translúcida deixou entrar a manhã sem pedir licença. À custa de tamanha irreverência a luz de abril entornou a primavera no teu rosto. Dormias. Não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a sonhar. Via-se bem a que costuma desenhar-te a boca naquela posição suspensa no horizonte de quem voa para um destino que inventou longínquo para não chegar. Eu bem que repreendia o poema que batia na vidraça para que não te acordasse, mas o que parecia ser só mais um amanhecer virou revolução de mil despertares e das penas do travesseiro saíram centenas de pássaros de uma assentada. Da novidade ficou a tua gaivota rubra a ensinar a cor dos cravos e a janela para sempre aberta a lembrar das aves que não têm dono. _ Joana Manarte Porto, 25 Abril 2018

Árvore

I  Tens comboios nas mãos quando as pousas  em mim. Vão para todo o lado e eu deixo.  E saem-te penas dos pés quando andas.  Tens estilo.  II  Gosto de ir ao cinema na tua boca.  Apoio a cabeça nos cotovelos e fico ali especada em frente à tua boca.  Aberta. E um filme a passar lá dentro, no escuro.  III  Nunca te contei isto, mas sonhei que dançaste comigo numa rotunda.  Chovia, era de noite, passava um carro de vez em quando.  Quando acordei tinha a roupa molhada. Era de noite. Passava um carro  de vez em quando e tu estavas a dançar comigo numa rotunda.  IV  Tens nuvens nos braços. Reparei nisso a primeira vez que me abraçaste  e eu não sabia do chão mas não caí.  V  Todas as estátuas com quem falei invejam-te a beleza  que trazes no corpo e no rosto e as pedras gritam  que és escultura em movimento.  VI  A tua sensibilidade arrepia-me os cabelos. ...

Se eu soubesse falar de amor

Se eu soubesse falar de amor, falava de guarda-chuvas como o Kusturica. Sempre gostei de guarda-chuvas. Talvez goste ainda mais de andar à chuva, mas sempre gostei de guarda-chuvas e do universo particular que nasce de cada vez que se abre um. Ele usava um guarda-chuva para se proteger das balas de uma guerra que não acabava nunca e à custa de um burro ágil e de um tecto de nylon impermeável ao ódio escapava ileso daqueles desentendimentos de chumbo a céu aberto, onde as bombas se cruzam com os pássaros. Se eu soubesse falar de amor, falava do leite como o Kusturica. Em cima do burro transportava vasilhas de lata cheias de leite, que só podia ser amor em estado líquido. Então ele andava com aquilo de um lado para o outro e nós ficámos com a ideia de que ele estava a levar a todos o alimento certo, até porque também foi por causa do leite que ele conheceu o amor dela. Acho que de desde que a viu - quando ela estava a ordenhar a vaca - o leite ficou ainda mais carregado do...