Um caso com um Neanderthal
Acontece que há fábulas urdidas de porvir. O batom que a boca espera no camarim do próximo palco. A melodia que ouço do pássaro que ainda não sabe que vai pousar na varanda do quinto andar. O sal que lambo da pele depois do mergulho na onda que se há-de formar antes da espuma. Conjecturar o futuro é ofício ancestral. Contou-me uma pedra sobre um auroque sulcado na rocha por um homem que desenhava à luz que lhe crepitava no peito, com certeza por saber já dos meus olhos vindouros de espanto ao chegar perto da figura. Nada sabemos sobre quem imaginou quem primeiro, se foi seu sorriso nómada que atravessou milénios ou meu olhar que espreitou por cima do ombro e tropeçou no paleolítico. Mas a poesia rupestre, quase impossível linguagem gravada sobre o tempo, ora côncavo, ora convexo, sopra para longe os sedimentos que empoeiram os corações e vem à tona do xisto uma missiva e respira que o amor é um círculo, ora côncavo, ora convexo, que a escrita do mundo reproduz. Entontece-nos no mar a o...