Acontece que há fábulas urdidas de porvir. O batom que a boca espera no camarim do próximo palco. A melodia que ouço do pássaro que ainda não sabe que vai pousar na varanda do quinto andar. O sal que lambo da pele depois do mergulho na onda que se há-de formar antes da espuma. Conjecturar o futuro é ofício ancestral. Contou-me uma pedra sobre um auroque sulcado na rocha por um homem que desenhava à luz que lhe crepitava no peito, com certeza por saber já dos meus olhos vindouros de espanto ao chegar perto da figura. Nada sabemos sobre quem imaginou quem primeiro, se foi seu sorriso nómada que atravessou milénios ou meu olhar que espreitou por cima do ombro e tropeçou no paleolítico. Mas a poesia rupestre, quase impossível linguagem gravada sobre o tempo, ora côncavo, ora convexo, sopra para longe os sedimentos que empoeiram os corações e vem à tona do xisto uma missiva e respira que o amor é um círculo, ora côncavo, ora convexo, que a escrita do mundo reproduz. Entontece-nos no mar a o...
regressava a casa, o pensamento a inaugurar a noite. liguei o rádio do carro, mudei para a opção CD e em poucos segundos Prince fez-me olhar nos olhos do retrovisor dearly beloved we are gathered here today to get through this thing called life.* saí do espelho com determinação de passerelle e logo espetei a imaginação contra um camião do lixo. a via era de sentido único, uma faixa de rodagem sem escapatória possível. desliguei o motor, observava as movimentações os fatos a luzir como mirada de gato a cor que parece sempre duvidar entre o verde e o amarelo os gestos repetidos até à eficiência o voo avulso dos sacos de plástico, sobras da vida a pairar sobre as cabeças. saí do carro para me ver do alto, ao volante, atenta à performance tão citadina, tão noturna, tão antiga. a imagem assomou-se como experiência velha, já por outras vezes vivida naquela mesma rua, quem sabe sobre os mesmos paralelos, num tempo em que o banco de trás era o meu reinado. electric word, life. it means forever...
Conta o meu pai que, nos anos 60, testemunhou histórias do “Salto” em que os emigrantes ilegais que saíam de Trás-Os-Montes, em busca de melhor sobrevida noutros países, pagavam aos passadores para encetarem uma jornada clandestina que os levaria para fora de uma geografia minada de injustiça e opressão. Um dos homens, ao despedir-se rumo a França, quis aprender a falar francês, apenas o imprescindível: du pain et des pommes de terre. Pão e batatas. De contrabandista em contrabandista, passavam as fronteiras do espaço exterior e do espaço interior, como se o caminho que percorriam mapa afora estivesse encostado a um caminho que faziam por si adentro, de tal forma que não era possível fazer a viagem esperada sem fazer a mais imprevisível de todas: a interior. Passavam tormentas grandes, concentradas em detalhes. A espera diurna fazia parte da fuga noturna. Esperavam, de roupas molhadas, num espaço mais apertado do que a incerteza. Deitavam-se escondidos num palheiro dez ou mais homens...
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