Árvore
I Tens comboios nas mãos quando as pousas em mim. Vão para todo o lado e eu deixo. E saem-te penas dos pés quando andas. Tens estilo. II Gosto de ir ao cinema na tua boca. Apoio a cabeça nos cotovelos e fico ali especada em frente à tua boca. Aberta. E um filme a passar lá dentro, no escuro. III Nunca te contei isto, mas sonhei que dançaste comigo numa rotunda. Chovia, era de noite, passava um carro de vez em quando. Quando acordei tinha a roupa molhada. Era de noite. Passava um carro de vez em quando e tu estavas a dançar comigo numa rotunda. IV Tens nuvens nos braços. Reparei nisso a primeira vez que me abraçaste e eu não sabia do chão mas não caí. V Todas as estátuas com quem falei invejam-te a beleza que trazes no corpo e no rosto e as pedras gritam que és escultura em movimento. VI A tua sensibilidade arrepia-me os cabelos. ...